sexta-feira, 1 de junho de 2012

Teoria da Kenosis, o “esvaziamento” do Logos.



Introdução:

Alguns episódios do seriado Smallville (apresentado no Brasil pelo SBT e pelo Warner Bros Chanel) tratam nos dois primeiros episódios da terceira temporada de Jonathan (pai de Clark Kent). Ele recebe super poderes de Jor-El para salvar a vida de seu filho. O resultado inesperado é que o corpo de Jonathan não suportou os poderes recebidos; e como consequência veio a sofrer sérios problemas de coração.            
A ideia destes episódios é que um corpo meramente humano não pode ter poderes sobrenaturais, se isto acontecer, o corpo humano poderia não suportar.
Este artigo propor-se a analisar uma das teorias que ensinou que o corpo de Jesus era meramente humano, desprovido dos atributos divino, estamos falando da teoria da kenosis.
Apesar das discordâncias teológicas periféricas[1] entre muitos cristãos; todos, (com exceção de alguns teólogos liberais) estão de acordo que “vindo, porém a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.12).
  Deus enviou seu filho na “plenitude do tempo”, ou seja, no tempo completo, no tempo exato, no pleroma (πλήρωμα) divino (Cf: Ef 1.10).
Sabemos que Jesus, o Verbo de Deus, “se fez carne e habitou entre nós...” (Jo. 1.14) através da encarnação. A encarnação do Verbo Divino foi e sempre será um fato histórico planejado por Deus deste toda eternidade; como afirma o Dr. Otto Piper: “O propósito divino concernente à Encarnação estava na mente de Deus desde a eternidade” (A. F. Julio, Org, 2003, p.106).
A Igreja no seu início não se preocupou muito com questões cristologicas como a encarnação de Jesus, porém, “resolvidas” as polêmicas questões trinitarianas; o foco naturalmente se voltou para questões da cristologia como afirma o teólogo reformado Louis Berhkof:  

Respirando o ar das controvérsias trinitarianas, foi natural que se tivessem aproximado do estudo de Cristo pelo lado da própria teologia. A decisão a que leva a controvérsia trinitariana – Cristo, como Filho de Deus, é da mesma substância do pai e, por conseguinte, é vero Deus – imediatamente originou a questão da relação entre a natureza divina e a natureza humana de Cristo (Berkhof. Louis, 1937, p. 93).
                  
Quando a Igreja se propos a desvendar o mistério da reencarnação, começou então às chamadas “controvérsias cristológicas”. Estas controvérsias “tem preocupado as melhores mentes da Igreja” (A. F. Julio, Org, 2003, p.102).
    Há várias concepções heréticas acerca da natureza e pessoa de Cristo como: Ebionismo (negou a natureza divina), Docetismo (negou a natureza humana), Arianismo (negou a natureza divina), Nestorianismo (negou a união das duas

naturezas), Eutiquianismo (Negou a distinção das naturezas), Apolinarianismo (negava o espírito do logos, logicamente numa concepção triteista) etc. 
Todas estas concepções, porém, foram concepções dos séculos terceiro e quinto d.C. Nossa proposta aqui é levantar a problemática de uma concepção cristológica pouco estudada do século XIX chamada “Teoria da Kenosis”.   
Nossa proposta não será resolver obviamente o problema da kenosis, porém, dá uma resposta à luz da teologia reformada à teoria da kenosis.

I. O problema das Teorias da Kenosis.

O Apóstolo Paulo escrevendo aos Filipenses sobre o exemplo de humilhação de Cristo afirma:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana , a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. ( Fp. 2-8 grifo nosso)   
  
 Foi apartir deste texto acima que alguns teólogos começaram a desenvolver a teoria da kenosis. A palavra kenosis é tomada do verbo grego kenou (κενόω) e significa “esvaziar” (embora possamos interpretar também como destruir, invalidar, tornar nulo [2]).
Devido ao grande número de correntes dentro desta escola de interpretação poderíamos dizer “teorias da kenosis” em vez de teoria da kenosis. 
Conceituando a kenosis Walter A. Elieweel afirma que a “teologia da kenosis concentra-se na pessoa de Cristo em termos de alguma forma de autolimitação pelo filho preexistente ao Se tornar homem. A teologia da kenosis em nível teórico é um modo relativamente novo de encarar a encarnação, dentro da história da reflexão sobre a pessoa de Cristo” (ELIWELL A. W. 1992 p. 396).
Já R.N Champlin Ph. D. declara “A teologia aplica o termo ao ato de Cristo, o filho de Deus, ao torna-se homem, o que significa que ele se esvaziou de seus atributos e poderes divinos, embora não de sua divindade. Exatamente até que ponto ocorreu esse esvaziamento é ponto disputado...”( CHAMPLIN R.N.1991, P.698).
 Podemos dizer que “De acordo com a ideia central da teoria Kenótica, o que ocorreu na encarnação foi que o filho de Deus, a segunda Pessoa da Trindade, do Logos Divino, pôs de lado seus atributos divinos inegáveis (onipotência/onisciência/onipresença), e viveu no período terreno dentro das limitações da humanidade” (A. F. Julio, Org., 2003, p.111).
 Todos os teólogos kenonitas estão de acordo que houve um esvaziamento de Cristo em sua encarnação. É fato, que o Logos divino escarnou-se e habitou entre nós como afirma as Escrituras, e que há sim uma espécie de “esvaziamento” de Cristo como uma das fases de sua humilhação para salvar seus escolhidos. Porém, a questão não é tão simples assim, e seríamos levados por um ingênuo biblicismo se afirmássemos que a problemática desta doutrina não é complexa e misteriosa para compreensão da cristologia bíblica.  

Se há um consenso quanto ao esvaziamento de Jesus, com toda certeza não há, como afirma Normam Champlin, um consenso sobre “até que ponto ocorreu este esvaziamento...” 
 Analisando a obra de Robert E. Picirili “He Emptiel Himself” (Ele se Esvaziou a Si); Wayne House (House Wayne.1999, p. 30) pode identificar as principais teorias acerca da kenosis, segue abaixo um pequeno resumo das principais interpretações de todas elas para facilitar a compreensão do nosso leitor:

1.     Cristo Esvaziou-se da Consciência Divina: O filho de Deus pôs de lado a sua participação na Deidade quando tornou-se homem. Todos os atributos da sua divindade literalmente cessaram quando ocorreu a encarnação. O logos tornou-se uma alma que residiu no Jesus Humano.

2.     Cristo Esvaziou-se da forma Eterna de Ser: O Logos trocou sua forma temporal condicionada pela natureza humana. Nessa forma temporal, Cristo não mais possuía todos os atributos pertinentes a Deidade, embora pudesse exercer poderes sobrenaturais.

3.     Cristo Esvaziou-se da integridade da Existência Divina infinita: Na encarnação de Cristo, o logos assumiu uma vida dupla. “Um centro vital” continuou a funcionar conscientemente na Trindade, ao passo que o outro encarnou-se com a natureza humana, inconsciente das funções cósmicas da Deidade.  

4.     Cristo esvaziou-se da Atividade Divina: O Logos entregou ao pai todas as suas funções e responsabilidades divinas. O Logos encarnado estava inconsciente dos acontecimentos internos da Trindade.

5.     Cristo Esvaziou-se do Exercício Efetivos das Prerrogativas Divinas: O Logos removeu a atuação dos atributos divinos do campo do real para o potencial. Ele reteve sua consciência divina, mas renunciou ás condições da infinidade e à sua forma. 

Há algo de comum nestas principais teorias da kenosis. O fato de muitos teólogos (principalmente ortodoxos) a rejeitarem, uns até com certa veemência, pois esta teoria encontrou resistência na teologia da cristologia tradicional e reformada, principalmente.  
  Outra coisa em comum vista nas mais variadas formas de teorias kenóticas é a concepção que o Filho de Deus renunciou seus atributos. As escolas de interpretação divergem em vários aspectos da sua cristologia, porém são unânimes em relação a perda de atributos do Logos, como afirma Heber Carlos de Campo: “Há várias nuanças nas teorias kenóticas, mas basicamente todas elas acentuam o fato de o filho de Deus ter renunciado, ao encarnar, não simplesmente ao uso dos seus atributos, mas aos próprios atributos” (CAMPOS. C. B, 2008, p. 33)   
Apesar dos teólogos kenoticos argumentarem que a doutrina é bíblica e usarem outros “textos provas” [3]; Walter A. Elwell crítica a doutrina afirmando que a mesma não procede das Escrituras: “Uma crítica persistente tem sido que a teologia da kenosis não é bíblica” (Elwell W. A. p.397).

Walter levanta questões ainda mais sérias, pois segundo sua critica à teoria kenótica, Deus não estaria profundamente envolvido com este homem limitado, por outro lado, a kenosis vista desta forma propiciaria ás pessoas enxergarem Jesus como um homem real, todavia, completamente limitado, o que na opinião de muitos, comprometeria totalmente a cristologia bíblica e seria um desperdício a pessoa de Jesus.
A teoria da kenosis tem contra ela a opinião de Charles Hodge. Ao defender a cristologia da igreja contra a teoria da kenosis ele observou “... a doutrina em todas as formas é incompatível com a cristologia da igreja, transmitida de geração a geração” (Wycliffe, 200 p.1125)
Outro que se posicionou contra a kenosis foi Berkhoewer, que alias, chega a citar o credo Atanasiano[4] (século V) contra os kenóticos “afirmando que a encarnação ocorre não por uma metamorfose da Divindade em carne, mas um ato de assumir a condição humana”. (Wycliffe, p.1125).
O teólogo reformado Louis Berkhof fez algumas objeções em relação à doutrina: “Essa doutrina significa uma virtual destruição da doutrina da Trindade e portanto, elimina o nosso próprio Deus. O Filho humanizado, voluntariamente esvaziou dos seus atributos, não poderia mais ser uma subsistência na vida trinitária... O Cristo dos kenoticos não é Deus nem homem” (BERKHOF, l. 2007. p.301, 302).
 Por outro lado encontramos fortes defensores das teorias e subteorias[5] kenoticas na Inglaterra como D.W. Forrest, Walter. P.T. Forsyth, Charles Gore, R. L. Ottley e H.R Machintosh Etc.
Segundo Thomasius, um dos principais teóricos da kenosis “A ideia central da teoria quenotica diz respeito ao abandono dos atributos divinos (onisciência, onipotência, onipresença) quando da encarnação do logos Divino vivendo uma vida segundo os limites da humanidade” (Brialyy C. Dissertação, p. 9).
Gess e H. W. Beecher afirmam que “O Logos se esvaziou tão completamente dos Seus atributos divinos que literalmente desistiu das Suas funções cósmicas e do Seu consciente eterno, durante os anos da Sua vida terrena.” (BERKHOF L. 2007. p.301, 301).
J. M. Greed afirmou de forma clara “O Logos divino, por  sua encarnação desvestiu-se de seus atributos divinos de onisciência e onipotência, de modo que em sua vida encarnada a Pessoa divina é revelada e unicamente revelada mediante uma consciência humana” (CAMPOS. C. B, 2008, p. 33)       


[1] Por exemplo, doutrinas que não são essências quanto à soteriologia como batismo por aspersão ou imersão? Supralapsarianismo ou Infralapsarianismo? Pre-milenismo ou pós-milenismo como amilenismo? Governo congregacional ou Presbiterial? Etc.      
[2] Cf:o verbo κενόω em GINGRICH F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento Grego/ Português.  São Paulo: Vida Nova, 1993 [sp].

[3]  Por exemplo, usando o texto de Mc: 13.32 perguntam: “Cristo sabia ou não sabia o tempo do fim?”
[5]  As subteorias são: 1) Cristo esvaziou-se dos atributos divinos: O logos possuía os atributos divinos, mas escolher não usá-los. 2) Cristo Esvaziou-se do Exercício independente dos atributos Divinos: O Logos sempre possuía e pôde utilizar as prerrogativas da Deidade, mas sempre em submissão ao poder do Pai e pelo poder do Pai ( e do Espírito Santo. O Cristo encarnado nunca fez nada independente por meio da sua própria divindade.3) Cristo Esvaziou-se das insígnias da Majestade, as Prerrogativas da Divindade:  O Logos esvaziou-se da forma exterior da divindade. 9 Esta noção é vaga quanto ao seu significado preciso)       

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